Desemprego é maior entre as mulheres e chega a 13,8% no fim de 2016
Publicado em: 09/03/2017 ás 07:40:00 Fonte: G1 TO

A dificuldade de inserção no mercado de trabalho, cada vez mais restrito e exigente, não é uma realidade só para Nayara, nem para os outros milhões de brasileiros que, com o agravamento da crise na economia, engordaram a fila de desempregados.
No entanto, para mulheres, a entrada ou a recolocação no mercado de trabalho tende a ser ainda mais custosa. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), a taxa de desocupação entre as mulheres com mais de 14 anos continua acima do índice geral, que inclui os dois gêneros.
No primeiro trimestre de 2012, quando a pesquisa do IBGE começou a ser feita, o índice de desemprego era de 7,9% no país. Para homens, a taxa era de 6,2% e, para mulheres, de 10,3%. Com o passar dos anos, as diferenças, timidamente, foram diminuindo, mas seguem altas. No último trimestre do ano passado, de acordo com os dados mais recentes, o índice de desocupação havia chegado a 12% no Brasil. Para os homens, era de 10,7% e para as mulheres, de 13,8%.
"A gente acompanha a participação da mulher desde 2012 e o que a gente mostra é que todas aquelas mazelas já conhecias com relação à mulher no mercado permanecem. Elas têm dificuldade de entrar, a taxa de desocupação é maior, estamos vivendo uma recessão onde tem 12 milhões de pessoas desocupadas, e parte expressiva é de mulheres”, disse Cimar Azeredo, coordenador de Trabalho e Renda do IBGE.
Condição desigual
O debate sobre desigualdade no mercado de trabalho ganha força nesta quarta-feira (8), Dia Internacional da Mulher.
O nível da ocupação (que mede a parcela da população ocupada em relação à população em idade de trabalhar) na análise entre gêneros também é distinta e menos favorável às mulheres. Em 2012, o percentual era de 56,3% no país – o número relativo aos homens era de 68,5% e o de mulheres, 45,2%. Quatro anos depois, o nível de ocupação havia recuado para 54%, sendo 64,3% entre homens e 44,5%, entre mulheres.
“As mulheres têm mais dificuldades do que os homens. Numa firma pequena [em plena crise], imagine um homem e uma mulher [funcionários]. Imagine que essa mulher tem 24 anos e o homem, 28. Ela pode engravidar, terá de ficar de licença, outro funcionário ser contratado... Para não ter esse ‘custo’, a empresa acaba preferindo contratar um homem”, afirmou Azeredo.
A recessão na qual o país mergulhou também contribui para que mais mulheres ficassem fora do mercado ou que recorressem a outras ocupações.
“Tanto a taxa de participação masculina quanto feminina piorou. Mas o que observo é que no início da crise, a partir de 2014, a desocupação estava mais focada em setores masculinos, como indústria e construção. Mais recentemente, tem havido um movimento em setores mais característicos entre mulheres, como comércio e serviços”, disse Ana Luiza Neves de Holanda Barbosa, técnica de Planejamento e Pesquisa do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).
De acordo com o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), todos os setores da economia fecharam vagas no ano passado. O setor de serviços foi o que mais cortou empregos: 390.109. Na sequência, estão a construção civil, com 358.679 e o comércio, com 204.373 mil.
Para Onofre Portella, professor de Economia das Faculdades Integradas Rio Branco, toda crise tende a acirrar as tensões existentes na sociedade e, particularmente, no mercado de trabalho. “Como exemplo dessas ‘tensões’, temos: o percentual de carteira assinada junto às mulheres é inferior ao dos homens. A diferença entre os rendimentos de homens e mulheres é maior entre os mais escolarizados. A remuneração das mulheres com curso superior é, em média, 40% inferior à dos homens.”
Trabalho doméstico temporário
Com menos vagas e salários menores, muitas mulheres têm recorrido à oferta de trabalhos domésticos, ainda que temporariamente. “A iniciativa de procurar trabalhos paralelos não é de agora, precisei trabalhar em serviços noturnos durante toda a minha graduação, que era integral. Mas, me oferecer para fazer faxina é novo e faz parte do desespero que vai batendo à porta. Não que eu esteja desmerecendo tais profissões, é que seria hipócrita ao dizer que essa seria minha primeira ou segunda opção, depois de tantos anos me dedicando a outra coisa“, contou a psicóloga.
Ainda assim, a demanda pelo serviço está fraca, segundo Nayara. “Não tem surgido nada, e aí não sei te responder qual o motivo...Talvez pela grande oferta...Participo de grupos de frilas e faxinas e quando aparece um anúncio de procura, existem mais de 70 respostas de pessoas se oferecendo para a vaga, então tudo acaba sendo muito rápido. Tenho colegas com mais qualificação que eu, já com o mestrado, por exemplo, que estão passando roupa para conseguir se manter. Acredito que a situação esteja, de fato, muito difícil."
“Com essa crise, a participação do trabalho doméstico subiu por falta de opção em outros setores - coisa que a gente não via antes. À medida que entra no processo de recessão, elas voltam para o trabalho doméstico. Isso vai acontecer até que tenha um reestabelecimento do cenário macro e um processo de geração de vagas que permita essa migração do trabalho doméstico”, analisou Azeredo.
Depois de o número de trabalhadores domésticos cair entre 2013 e 2014, de acordo com o IBGE, em 2015 e 2016, o contingente voltou a crescer. O ano passado encerrou com 6,108 milhões de domésticos. Desse total, apenas 1,946 milhão tinham carteira assinada.

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